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Max Gehringer Responde

Se tem uma pessoa que entende muito do mundo corporativo é o Sr. Max Gehringer, sou um admirador do seu conhecimento e trabalho. Por isso estarei postando as respostas que ele responde na sua coluna para os leitores da revista Época.

Postado dia 13/07/11 ás 22:00


Sempre fui vendedor, mas me formei em Direito e estou fazendo pós-graduação. No momento estou desempregado e não consigo passar em processos seletivos para vendedor porque os recrutadores alegam que eu pediria a conta assim que encontrasse uma vaga na área jurídica. O que devo fazer? Elimino minha formação do currículo?
Sim, elimine. Um currículo deve ser apropriado para a vaga que você deseja. Então, faça dois currículos: um para a área de vendas (em que sua experiência prática será relevante) e outro para eventuais vagas em áreas administrativas ou jurídicas, aí, sim, com os cursos de graduação e pós.
 

Trabalho em uma empresa de telemarketing. Temos restrições absurdas – para não dizer constrangedoras – para nos ausentarmos de nosso posto de trabalho. Para ir ao banheiro, precisamos de autorização prévia, e o tempo é controlado pelo encarregado. Como esse é meu primeiro emprego, pergunto: todas as empresas são assim?
Nem de longe. O controle de necessidades fisiológicas é uma novidade que foi inventada pelas empresas de telemarketing em nome da produtividade. Como cada funcionário tem metas diárias de atendimento, cada minuto é precioso. Isso é legal? Eu achava que não, mas recentemente o Tribunal Superior do Trabalho (TST) me deixou em dúvida ao julgar dois recursos. A Sétima Turma do TST negou o pedido de indenização por danos morais de um funcionário que precisava de autorização para ir ao banheiro e tinha o tempo controlado. Em sua sentença, a juíza observou que a medida visava evitar a saída de muitos funcionários ao mesmo tempo. Já a Sexta Turma do TST julgou improcedente o recurso de uma empresa de telemarketing condenada por motivo semelhante: a funcionária tinha de explicar por que ficava no banheiro além do tempo permitido. Segundo o relator do processo, essa atitude era um “desrespeito à dignidade humana”, a situação era “degradante e vexatória”, e a empresa foi condenada a pagar R$ 5 mil de indenização. Então, a matéria ainda não está clara, mas nossa leitora pode ficar tranquila quanto a seus futuros empregos, desde que eles não sejam em empresas de telemarketing.
 

No mês passado, ocorreu a pesquisa de clima organizacional na empresa em que trabalho. As respostas são confidenciais, mas desta vez o processo foi diferente. A pesquisa foi organizada por uma agência contratada, que enviou por e-mail uma senha de acesso ao formulário de respostas. Respondi com sinceridade e critiquei o que achava injusto ou errado, depois fiquei preocupado: qual é o grau de probabilidade de a empresa identificar o autor das respostas?
É de 100%. Espero que a empresa use as respostas para tomar medidas que melhorem o ambiente de trabalho, e não para identificar os funcionários mais ácidos nas críticas. O que se fará com as respostas vai depender da intenção da empresa.
 

Depois de trabalhar durante nove anos em uma multinacional, mudei-me para uma empresa menor, de gestão familiar, em outra cidade. Meu objetivo era buscar melhor qualidade de vida, o que consegui. Porém, comecei a ficar em dúvida quanto a meu futuro profissional. Não vejo condições de ascensão nem de melhoria salarial. Será que dei um tiro no pé?
Você mudou de emprego por um único motivo. E quem toma uma decisão assim precisa ter a certeza de que esse motivo será forte o suficiente para se sobrepor a todos os outros. Não creio que, no processo de contratação, você ignorasse que ficaria estagnado ou estabilizado numa função. Simplesmente, você decidiu que isso seria menos importante do que a qualidade de vida. Se agora, ao comparar o que tem com o que tinha, você chegou à conclusão de que os outros fatores são mais relevantes, eu lhe sugiro retomar sua carreira no ponto em que você a deixou.
 

Com tantas leis neste país, por que não existe alguma para amparar os profissionais com mais de 40 anos que procuram emprego e não encontram?
Os levantamentos do Dieese para o município de São Paulo (usado como base por ser o maior mercado de trabalho do país) têm mostrado um quadro que pouco se alterou com o passar dos anos. Para um índice geral de desemprego de 14%, o maior porcentual está na faixa dos 18 aos 24 anos (20%). Em seguida vem a faixa dos 25 aos 39 anos (11%) e por último a faixa de 40 anos ou mais (8%). Portanto, de cada 100 profissionais com mais de 40 anos que procuraram emprego nos últimos anos, 92 conseguiram. Uma análise simples desses dados já permite deduzir que não existe uma maciça discriminação por idade no mercado de trabalho, mesmo que algumas empresas possam dar preferência a candidatos mais jovens. Você pode estar se perguntando por que, então, é um dos poucos que não estão conseguindo emprego. Vários fatores podem contribuir para isso: escolaridade, atualização tecnológica, muitas empresas em pouco tempo ou último salário acima da média do mercado. A idade pode influir, mas não é o principal fator. De qualquer forma, existe uma lei contra a discriminação por idade e ela pode ser usada se esse – e apenas esse – for o motivo para a exclusão num processo seletivo.
 

Meu chefe está saindo de férias e emitiu um comunicado informando que nesse período os assuntos de nosso setor devem ser tratados comigo. Quais os prós e os contras?
Os prós são maioria. Seu chefe vê em você condições técnicas e de liderança para manter a rotina do setor. Se você conseguir fazer isso com competência, será o primeiro da fila numa eventual promoção futura. O que deve evitar é cair na tentação de agir como subchefe quando seu chefe retornar das férias. Se hoje você está no mesmo nível de seus colegas, deve retornar a esse nível assim que seu chefe chegar bronzeado e reassumir o trono.
 

Depois de trabalhar durante nove anos em uma multinacional, mudei-me para uma empresa menor, de gestão familiar, em outra cidade. Meu objetivo era buscar melhor qualidade de vida, o que consegui. Porém, comecei a ficar em dúvida quanto a meu futuro profissional. Não vejo condições de ascensão nem de melhoria salarial. Será que dei um tiro no pé?
Você mudou de emprego por um único motivo. E quem toma uma decisão assim precisa ter a certeza de que esse motivo será forte o suficiente para se sobrepor a todos os outros. Não creio que, no processo de contratação, você ignorasse que ficaria estagnado ou estabilizado numa função. Simplesmente, você decidiu que isso seria menos importante do que a qualidade de vida. Se agora, ao comparar o que tem com o que tinha, você chegou à conclusão de que os outros fatores são mais relevantes, eu lhe sugiro retomar sua carreira no ponto em que você a deixou.
 

Com tantas leis neste país, por que não existe alguma para amparar os profissionais com mais de 40 anos que procuram emprego e não encontram?
Os levantamentos do Dieese para o município de São Paulo (usado como base por ser o maior mercado de trabalho do país) têm mostrado um quadro que pouco se alterou com o passar dos anos. Para um índice geral de desemprego de 14%, o maior porcentual está na faixa dos 18 aos 24 anos (20%). Em seguida vem a faixa dos 25 aos 39 anos (11%) e por último a faixa de 40 anos ou mais (8%). Portanto, de cada 100 profissionais com mais de 40 anos que procuraram emprego nos últimos anos, 92 conseguiram. Uma análise simples desses dados já permite deduzir que não existe uma maciça discriminação por idade no mercado de trabalho, mesmo que algumas empresas possam dar preferência a candidatos mais jovens. Você pode estar se perguntando por que, então, é um dos poucos que não estão conseguindo emprego. Vários fatores podem contribuir para isso: escolaridade, atualização tecnológica, muitas empresas em pouco tempo ou último salário acima da média do mercado. A idade pode influir, mas não é o principal fator. De qualquer forma, existe uma lei contra a discriminação por idade e ela pode ser usada se esse – e apenas esse – for o motivo para a exclusão num processo seletivo.
 

Meu chefe está saindo de férias e emitiu um comunicado informando que nesse período os assuntos de nosso setor devem ser tratados comigo. Quais os prós e os contras?
Os prós são maioria. Seu chefe vê em você condições técnicas e de liderança para manter a rotina do setor. Se você conseguir fazer isso com competência, será o primeiro da fila numa eventual promoção futura. O que deve evitar é cair na tentação de agir como subchefe quando seu chefe retornar das férias. Se hoje você está no mesmo nível de seus colegas, deve retornar a esse nível assim que seu chefe chegar bronzeado e reassumir o trono.
 

Há três anos, impressionado com os ganhos da Bolsa de Valores, deixei meu emprego e decidi me tornar um investidor. Acreditava que poderia me dar bem também no mercado financeiro. A queda da Bolsa me pegou desprevenido. Estou em má situação financeira e não consigo emprego. Tenho 54 anos. Devo dizer nas entrevistas de emprego que fracassei e me arrependi?
Sim, deve. E pode acrescentar que aprendeu na pele que o fato de alguém ser bom em uma área não significa que será bom em qualquer outra. Sua história é um alerta a quem se atira numa atividade de risco, em que poucos ganham muito. Seu caso é ainda mais grave porque, sendo novato, empenhou todo o patrimônio conseguido ao longo da carreira. Outro leitor, executivo de 41 anos, escreveu contando uma história similar: decidiu investir o dinheiro na construção de prédios populares para viver de aluguel. Sem experiência no ramo, faliu em dois anos e está encontrando dificuldades para retornar ao mercado. Arriscar tudo em um setor no qual nunca atuou até pode dar certo, mas as chances de dar errado são bem maiores. 

O diretor de minha área instituiu a “reunião da base da pirâmide”: uma vez por mês, nós, colaboradores, vamos poder colocar em pauta temas que nos incomodam. Meus colegas e eu temos muitas reclamações, mas vamos correr riscos se formos muito sinceros?
Entre vocês e o diretor deve haver no mínimo um grau hierárquico, possivelmente dois. O mais sensato seria vocês debaterem antes com seus superiores diretos o que vão levar à reunião. Acredito que seu diretor tenha a melhor das intenções, mas vocês correm o risco de criar ainda mais problemas caso abordem temas que nunca discutiram com seus chefes imediatos. Sugiro que vocês levem à primeira reunião assuntos que não incluam relações interpessoais (trocar o ar-condicionado, por exemplo). Depois, dependendo das providências que o diretor tomar, aumentem as reivindicações até chegar às que realmente interessam. 

Dois amigos e eu somos sócios numa pequena empresa de informática. Fomos surpreendidos porque uma rede nacional propôs comprar nossa empresa. Estamos dispostos a vender, mas não sabemos como calcular quanto ela vale.
A maneira mais fácil é dez vezes o lucro líquido anual, antes do pro labore dos sócios. Assim, vocês receberiam de uma só vez o que levariam dez anos para ganhar. Porém, se a empresa vem crescendo mais de 30% ao ano nos últimos cinco anos, vocês podem usar o fator 20 em vez de 10. Certamente, a rede vai tentar barganhar. Aí, é uma questão de ver quem negocia melhor. 

As empresas podem instalar câmeras para vigiar os empregados?
Sim, podem, nas áreas comuns de trabalho, onde os empregados estarão fazendo o que são pagos para fazer, ou seja, trabalhar. Câmeras só não podem ser instaladas nos locais em que vão provocar constrangimento (banheiros e vestiários, por exemplo). 

Após quatro anos nesta empresa, fui convidada a participar de um programa interno de coach. Pelo que entendi, a empresa vai escolher uma pessoa mais antiga de casa para me dar conselhos profissionais. Nunca fui criticada por meu trabalho e estou em dúvida quanto à intenção da empresa. Será que fiz algo errado?
Pelo contrário. Você recebeu uma ótima notícia. Coaching é uma palavra que significa treinamento, e esse é um dos melhores programas de desenvolvimento individual que eu conheço, porque o coach interno é alguém que conhece a fundo a empresa e já passou por situações várias pelas quais você ainda terá de passar. Para funcionar bem, esse programa precisa de duas coisas. A primeira é que o coach interno (que não vai receber nenhum pagamento adicional) aceite a responsabilidade de bom grado e se empenhe para transmitir o que ele aprendeu na vida prática. E a segunda é que você seja sincera ao compartilhar com ele as suas dúvidas e ouça as sugestões dele sem se colocar numa posição defensiva. Se vocês conseguirem estabelecer essa relação de confiança mútua, o programa – que dura entre três e seis meses – será mais útil para sua carreira no curto prazo que um MBA. Portanto, aproveite.
 

O texto da Nossa Missão de minha empresa fala em “melhoria contínua através da gestão participativa”. Mas jamais somos chamados a opinar sobre decisões que afetam nosso dia a dia. Será que essa frase é só para impressionar?
A gestão participativa tem por princípio comunicar o que acontece na empresa, explicar por que certas decisões são tomadas nas altas esferas e permitir que todos os níveis hierárquicos possam apresentar sugestões e manifestar suas opiniões. Logo, em seu caso, a resposta é sim. A frase deve ter sido copiada da Nossa Missão de alguma outra empresa.
 

Atuo há 12 anos na área de sistemas de uma multinacional. Recebi uma proposta para ingressar numa empresa em processo de startup, para ganhar o dobro. Devo encarar?
Para quem não está familiarizado com a terminologia, start-up quer dizer embrionária. É uma empresa que está começando agora e, portanto, não há como obter muitas informações sobre ela. Dito isso, eu, se estivesse na pele do leitor, só aceitaria a proposta com um contrato de garantia de emprego por dois anos. Não é incomum que empresas nascentes contratem, por salários extravagantes, profissionais com profundo conhecimento técnico. São eles que vão colocar a empresa em pé e pronta para deslanchar. Porém, assim que a empresa se assenta, pode acontecer de esses profissionais serem substituídos por outros mais em conta. Em princípio, desconfie de quem quer pagar um salário muito acima da média do mercado. Não apenas em sistemas, mas em qualquer área.
 

Fiz uma entrevista há 45 dias e ainda não recebi uma resposta. Devo continuar aguardando ou ligar para a empresa?
Nenhum dos dois. Toque sua vida. O silêncio da empresa já é uma resposta, embora não seja a mais profissional nem a mais educada.
 

Ao contrário da maioria das pessoas que convivem comigo, não pretendo ser um exemplo de sucesso na vida profissional. Não acho que preciso ter o melhor emprego do mundo ou evoluir para cargos mais altos para ser feliz. O que há de errado nisso? Sou pior que meus colegas porque penso dessa forma?
Você definiu o que é sucesso segundo sua ótica. Provavelmente, você abomina pessoas que são dadas a demonstrações explícitas de status profissional – e não gosta de gente que resume a própria existência ao cargo que tem e às aspirações para atingir cargos mais elevados. Para você, sucesso consiste em estabelecer um equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, e isso faz com que você não dedique todos os seus minutos a construir uma carreira. Se isso o satisfaz e não lhe causa arrependimento, você é um sucesso naquilo que se dispôs a fazer – usar o trabalho como meio, e não como fim. De minha parte, parabéns.
 

Defina o que é inveja. Fui acusada de ser invejosa, e acho que não sou.
É o reconhecimento de que não dá para ser como o outro é. Isso tanto pode resultar em uma admiração quanto em um opressivo sentimento de que a outra pessoa não merece o que tem, o que é inveja. A partir dessa constatação, o invejoso pode guardar para si o que sente, uma atitude que só faz com que a inveja vá aumentando, ou tentar denegrir o que o invejado faz. Se a colega que acusou você disse isso diretamente, talvez você deva repensar o que vem dizendo sobre ela. Se você soube da acusação por terceiros, talvez a invejosa seja sua colega, e não você.
 

Como as empresas avaliam alguém que concluiu um curso superior à distância?
Depende. A avaliação será boa se o candidato não tinha condições de fazer um curso presencial, ou por alguma dificuldade física de mobilidade ou porque seu trabalho requeria viagens contínuas. Nesse caso, o candidato estará demonstrando que usou a única opção disponível para se graduar. Fora isso, vejo o ensino à distância mais como uma opção de pós-graduação. É uma ótima oportunidade para agregar mais conhecimentos específicos a uma base acadêmica já consolidada.
 

Ouvi rumores de que serei dispensado. Devo falar com meu chefe sobre isso?
Se sua dispensa já foi decidida e o processo está em andamento, a conversa não mudará o futuro. O único resultado prático seria deixar seu chefe sabendo que há vazamentos no sistema de comunicação da empresa, algo que poderá causar outras dispensas. Se os rumores forem falsos, seu chefe o criticará por perder seu tempo ouvindo banalidades. O mais sensato é você se preparar para ser dispensado, atualizar o currículo e a lista de contatos. Essas providências lhe serão úteis mesmo que os boatos sejam falsos. Ao se mexer, pode ser que você consiga uma vaga em uma empresa menos afeita ao diz que diz dos corredores.
 

Sou formada em Direito, mas não consegui passar no Exame da Ordem dos Advogados, que me permitiria exercer a profissão. Já foram quatro tentativas frustradas. Cada vez que acontece, me sinto mais desestimulada. Trabalho numa boa empresa, mas minha função não tem nada a ver com advocacia. O que você me sugere?
Uma pós-graduação em administração ou um curso de especialização na área em que você está atuando. O número de bacharéis em Direito que passa no Exame da Ordem é baixo – menos de 20%. Há mais de 4 milhões de bacharéis em situação igual a sua. Eu lhe recomendo fazer o que a maioria deles já fez: encarar o curso de Direito como uma graduação que lhe dará oportunidade de exercer funções administrativas em empresas. Você não fez uma escolha errada. Você concluiu um bom curso que não lhe abriu as portas que você imaginava, mas que poderá lhe abrir outras que você não havia considerado.
 

Estou de casamento marcado para daqui a alguns meses. Meu noivo está sendo transferido para outra cidade, para ocupar um cargo melhor, e eu estou feliz por ele. Porém, eu também tenho um bom emprego e ganho mais que meu noivo. A cidade para a qual ele será transferido é pequena e não oferece oportunidades para profissionais de minha área. Estou apavorada com essa situação inesperada.
A mulher que serenamente acompanhava o marido numa transferência está bem guardada em algum museu do século XX. Hoje, quem faz as malas é o cônjuge com menor perspectiva de carreira. Se esse cônjuge for o marido, como ocorre no caso de vocês, ele deve pedir demissão, voltar para a cidade de origem, procurar um emprego que permita a ele estar a seu lado e incentivar sua ascensão profissional, porque isso será o melhor para o casal. Se seu noivo não aceitar essa situação, o casamento de vocês provavelmente só durará até que a paixão inicial dê lugar à racionalidade e você comece a avaliar tudo o que perdeu.
 

Vou dar entrada num processo de assédio moral contra meu ex-gerente. Tenho laudos médicos e psicológicos que atestam minha degradação física e mental. Devo dizer isso em futuras entrevistas de emprego?
Não. Esse é o tipo de assunto que deixa entrevistadores assustados. Primeiro, consiga um emprego. Após o período de experiência, explique o caso a seu novo chefe e fale que você pretende mover o processo. É importante que ele saiba com antecedência, porque você vai perder alguns dias de trabalho para participar das audiências. Talvez seu novo chefe lhe ofereça apoio, ou talvez ele tente dissuadi-la. Aí, com novos elementos a considerar, você saberá decidir o que é melhor.
 

Qual é a hora certa para sair de uma empresa?
Quase sempre quem faz essa pergunta está consciente de que a hora já passou, mas tem receio de arriscar.
 

Faço todos os trabalhos de marketing na empresa em que atuo, que tem porte médio. Mas em minha carteira profissional fui registrado como assistente administrativo. Quero me candidatar a vagas mais ambiciosas em marketing, mas não tenho como comprovar minha experiência. Qual é a melhor maneira de esclarecer isso em meu currículo?
Coloque o nome da função de fato. Minha sugestão seria: gestor de marketing. Em seu caso, gestor é uma palavra recomendável porque ela situaria sua função em qualquer lugar do organograma. Se você usar termos mais tradicionais, como “gerente” ou “encarregado”, alguém de sua atual empresa poderia dizer que isso não é verdade, se fosse consultado por um potencial empregador. Em seguida, faça uma breve descrição das tarefas que você vem desempenhando. Ao final, escreva: “Por decisão da empresa, fui e continuo registrado como assistente administrativo, embora nunca tenha exercido essa função”.
 

Trabalhava havia oito anos em uma boa empresa e aceitei um convite para ganhar 50% a mais numa companhia que estava se instalando no Brasil. Depois de seis meses, fui dispensado. Estou perdido e não sei o que aconteceu.
Uma empresa nova e sem nenhuma referência só consegue admitir funcionários qualificados se oferecer salários acima da média do mercado. Mas a nova empresa sabe que esse custo adicional não é para sempre. Assim que ela absorve os conhecimentos dos que foram contratados e cria uma carteira de clientes, as atenções se voltam para os custos. A recomendação é que os admitidos solicitem um contrato de trabalho por um prazo mínimo de dois anos. Se a empresa não concordar com isso, é um indicativo de que a mudança é uma fria.
 

As grandes empresas que trabalham com tecnologia da informação vêm recrutando estagiários com conhecimentos básicos de informática. Eles recebem treinamentos e são efetivados com bons salários. Como ficam os profissionais que se dedicaram a uma graduação na área?
No Brasil, ou existe uma lei que obrigue a contratação de profissionais com determinada formação, ou as empresas são livres para escolher o processo de admissão e treinamento que considerem mais apropriado. Há leis que regulam o exercício do Direito, da medicina, da contabilidade. Sem regulamentação pode haver discussão, mas não há obrigação.

Meu diretor me criticou por eu ser exigente demais com meus subordinados. Venho de empresas em que isso era considerado mérito, não deficiência.
Concordo com sua afirmação e com a crítica de seu diretor. Cada empresa tem sua própria cultura. Os mais bem adaptados sobrevivem mais e melhor, independentemente do sucesso que tenham conseguido em culturas diferentes. Se você não foi expressamente contratado para mudar a cultura da atual empresa, está implícito que você deve se adequar a ela, e não o contrário.
 

Trabalho ao lado de um colega que não prima pela higiene. Sua aparência e o cheiro que ele exala me incomodam demais. Só de olhar para ele me sinto mal. O que posso fazer para mudar essa situação? Será que a melhor estratégia é abrir o jogo e pedir para mudar de lugar? Ou será que posso ser mal interpretado pelo chefe? Devo fechar os olhos para isso?
Você só deve falar com o chefe se todos os seus colegas forem junto. Vivi uma situação dessas. Um colega foi reclamar de outro que não tomava banho e não usava desodorante. O chefe respondeu: “O Cheiroso é o funcionário mais eficiente do departamento. Quando você conseguir resultados iguais aos dele, volte a falar comigo”. Você pode pedir a seu chefe para mudar você de lugar, mas não espere outro tipo de providência se for reclamar sozinho. Chefes são mais ligados em números do que em cheiros
 

Estou participando de dois processos seletivos. A primeira empresa prometeu a resposta em uma semana e a segunda em 20 dias. Prefiro a segunda. O que fazer se a primeira me chamar antes?
A pior opção seria você recusar a primeira proposta apostando na segunda, que pode não dar certo. Menos mau é aceitar a primeira e pedir demissão depois de duas semanas de trabalho. Mas a conduta é pouco profissional. Caso a primeira empresa confirme sua contratação, agradeça, desligue e imediatamente ligue para a segunda. Diga que prefere trabalhar nela, mas não pode esperar duas semanas pela resposta, porque tem uma proposta em mãos. Se a segunda empresa tiver interesse em contratá-lo, apressará o processo e lhe responderá em um dia.
 

Trabalho em uma das maiores consultorias do país. Colegas que se formaram comigo e trabalham em empresas menores ganham mais do que eu. Há algo errado?
Não. Você está olhando a situação apenas no curto prazo. Sua empresa atual lhe proporciona um aprendizado diferente, contatos com grandes clientes e uma chancela de muito prestígio em seu currículo. Depois de passar dois anos nesse emprego, você terá adquirido experiência suficiente para ser contratado por uma empresa de renome com um razoável salto salarial, algo que a maioria de seus colegas não conseguirá.
 

Tenho 17 anos. O que você me diria sobre os cursos tecnológicos?
Eu diria que, ao ingressar em um deles, você já deve ter uma razoável noção do que deseja para sua carreira profissional. Se gosta da área de logística, por exemplo, o curso tecnológico é uma excelente opção. O que você deve evitar é se encantar com o nome de um curso sem saber que tipo de possibilidade de emprego ele lhe oferecerá. Um caso típico é relações internacionais. Só na hora de procurar um emprego se descobre que o mercado é restrito. Portanto, não veja um curso tecnológico como uma maneira de encurtar o caminho da formação superior. Não é para isso que eles foram criados, mas para formar técnicos em funções específicas.
 

Fui informado pelo departamento de Recursos Humanos que o supervisor que me contratou e me treinou será dispensado e que eu assumirei o lugar dele. Mantenho com essa pessoa laços de gratidão e de amizade. Não sei o que fazer. Ele ainda não sabe da situação. Devo dizer a ele? Posso recusar a promoção?
Pode, mas isso não iria mudar a situação de seu amigo supervisor. Se a empresa já decidiu substituí-lo, ele será substituído independentemente do que você venha a fazer. Seus sentimentos são nobres, sem dúvida, mas você não é responsável pela situação. A empresa viu em você condições para realizar um trabalho melhor. Quanto a antecipar a seu amigo o que vai acontecer, a cartilha corporativa manda você ficar calado até que a comunicação oficial seja feita por quem de direito. Mas, se eu estivesse em seu lugar, diria a verdade. Você precisaria ser muito dissimulado para passar vários dias fingindo que não sabe de nada, e pelo teor de sua mensagem isso não parece ser de sua natureza.
 

Pedir para anexar foto ao currículo não é uma forma de discriminação?
Sim e não. Não nos casos em que a aparência possa ser considerada um fator relevante para o desempenho da função. Recepcionistas, por exemplo. Porém, de modo geral, há tempos as empresas deixaram de colocar em seus anúncios de emprego a expressão “boa aparência” porque ela passou a ser percebida como discriminatória. Nesse caso, a solicitação da foto também seria. Não vejo problemas em um candidato anexar a foto por conta própria, mas vejo em uma empresa pedi-la sem um motivo plausível e justificável.
 

Gerencio uma filial regional de uma grande empresa. Recebi uma ordem para cortar 20% do meu pessoal. Não sei a quem cortar, e não sei o que dizer aos que serão cortados, porque nossos resultados têm sido bons e o ambiente de trabalho é excelente. Sinto que vamos destruir em minutos o que levamos anos para construir. Há algo que eu possa fazer para evitar esse desastre?
Certamente, a direção da empresa sabe o que está fazendo. Os resultados nacionais devem estar abaixo do esperado e cada filial terá de contribuir com sua dose de sacrifício. É um daqueles momentos terríveis na carreira de um gerente: sem saber dos detalhes e sem espaço para argumentar, terá de cumprir uma determinação. Pior, perante seus subordinados o gerente dará a impressão de que não soube lutar por sua equipe. Minha dica é cortar racionalmente, a partir dos resultados numéricos. Você pode solicitar uma prorrogação no plano médico dos que forem cortados. E, finalmente, tentar auxiliar os demitidos a conseguir recolocação. O que não se deve fazer é espinafrar a direção da empresa, como se os cortes tivessem sido uma decisão insensata. Além de não resolver o problema, criaria nos 80% restantes o desejo de ir embora na primeira oportunidade que surgir. Por mais que isso doa, o gerente precisa defender a postura da empresa. É para isso que ele foi contratado e é pago
 

Decidi dispensar uma funcionária que não apresenta bom desempenho e se relaciona mal com os colegas. Ouvi rumores de que ela estaria grávida. Como devo agir em uma situação como essa? Se ela confirmar o fato no momento da demissão, sou obrigado a mantê-la trabalhando? Não. Mas você é obrigado por lei a mantê-la no quadro de funcionários. A gravidez gera uma garantia de emprego que continua por cinco meses após o parto. Ou seja, obrigatoriamente a funcionária continuará recebendo salários e benefícios por mais um ano, se ela estiver no segundo mês de gravidez. O que você pode fazer é tentar um acordo para que ela passe todo esse tempo em casa, começando imediatamente. Se ela concordar, coloque isso por escrito, com a assinatura dela. Sua decisão está entre manter uma funcionária que você está pagando, mas que lhe causa problemas, ou contratar alguém para substituí-la. A segunda alternativa é mais cara, mas talvez seja mais conveniente. 

 

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